02/05/2020

ELOGIO SOLENE (PANEGÍRICO) AO IMORTAL NAYLOR GEORGE PIRES



ELOGIO SOLENE A NAYLOR GEORGE PIRES - SAUDADE ETERNA DO SODALÍCIO DA ACADEMIA ACREANA DE LETRAS

Prof.ª Dr.ª Luísa Karlberg
Presidente da AAL
APRESENTAÇÃO  - A ACADEMIA ACREANA DE LETRAS – AAL com profundo pesar, realiza o Panegírico do ilustre CONFRADE EMÉRITO NAYLOR GEORGE PIRES, que deixa vacante a cadeira 26 da AAL.
Um panegírico era, originalmente, na Grécia Antiga, o discurso de caráter encomiástico ou laudatório que era pronunciado em grandes reuniões festivas do povo. Na Roma Antiga, denominava-se "panegírico" o discurso que os cônsules romanos pronunciavam diante do imperador, depois de serem eleitos, manifestando-lhe seu respeito e admiração.Hoje é uma saudação, uma homenagem pós-morte. Portanto, hoje, fazemos um hino de louvor e saudade a Naylor George Pires
Diz Costa (2013, in Bachelard, em A poética do espaço, 1986, p.42) “que os escritores nos dão seus cofres para ler. Ora, se os cofres funcionam, simbolicamente, como um dos órgãos da vida psicológica, a franquia deles para o deleite do leitor significaria a abertura de uma intimidade”. Em parte, faremos essa pesada tarefa. Salve Naylor Goerge Pires, os agradecimentos do Sodalício Acreano por sua vida dedicada à cultura, as artes, aos livros, ao jornalismo!

NAYLOR GEORGE PIRES - 12/03/1956 - 18/12/2019 – CADEIRA Nº 26 E MEMBRO EMÉRITO DA ACADEMIA ACREANA DE LETRAS. 

I – ORIGENS - Nascido no Seringal Iracema, Xapuri, no rio Acre, no dia 12 de março de 1956, filho de Mizael Montizuma e Raimunda Pires. Saiu bem jovem do seringal para a cidade, segundo ele, ainda sem conhecer o gelo, vindo morar no Bairro Quinze, na provincial Rio Branco dos anos 60. Naylor George Pires é membro de uma família tradicional de reconhecidos nomes de nossa educação, como os irmãos Montizuma, ou da cultura como seu primo, o músico João Donato.
Durante toda sua infância e adolescência, morou no Bairro Quinze, um dos mais antigos bairros da cidade, e o local de moradia de segmentos diferenciados étnico, cultural e socialmente. É o lugar que imortalizou com sua obra, a Décima Quinta Lembrança, livro que sem dúvida é um dos trabalhos literários mais expressivos da década de 70.
Naylor, desde muito jovem, se destacou pela inteligência, inquietude e criatividade, qualidades que entre outras, o tornaram conhecido em toda a cidade. Tendo participado ativamente da grande ebulição das artes que foi na década de 70, na cidade de Rio Branco, destacando-se, inicialmente, no Teatro e, em seguida, após a conclusão do curso de História, pela UFAC, torna-se, com seu aguçado senso crítico, jornalista, escritor e poeta, antes de tudo, com uma forte consciência histórico-social e política. Síntese, talvez, do tempo vivido no Bairro Quinze. Tinha excelente formação universitária, bom escritor, domínio correto do idioma pátrio. Brincava com as palavras e com elas também fazia humor bastante criativo. Um homem de rara inteligência e cultura. Escreveu seis livros e mais de 10.000 artigos. Uma produção que o fez jornalista respeitável e respeitado, em decorrência, ora das importantes narrativas e registros sobre nossa história e nossa cultura, ora pela importante expressão literária, onde exprime, com vigor, revolta, desencanto e, sobretudo, uma agressiva sinceridade que é parte reconhecida de sua personalidade.
O imortal, poeta e escritor Naylor George, segundo a confreira Prof.ª Dr.ª Maria José Bezerra, sua biógrafa, as experiências na Universidade o ajudaram a desenvolver sua potencialidade poética, dentre as quais citamos: Curso de formação jornalística e Curso de Metodologia de Pesquisa Literária. Representou o Estado do Acre no Encontro Norte-Nordeste de Escritores, realizado em Manaus-AM, pela União Brasileira de Escritores do Amazonas.
Também, participou de vários cursos de extensão e seminários, desde a época de universitário. Naylor George se fez atuando em diferentes expressões das Letras e das Artes, dentro e fora da UFAC, inclusive atuando no Teatro Amador, para dar livre curso ao seu potencial. Prestou serviços à educação em nossa região, inclusive como representante do Estado do Acre, no Encontro Nacional de Teatro Amador, realizado, à época, em Goiânia.
Com bastante mérito é membro da Academia Acreana de Letras, desde 2005. Em decorrência, ora das importantes narrativas e registros sobre nossa história e nossa cultura, ora pela importante expressão literária, onde exprime, com vigor, revolta, desencanto e, sobretudo, uma agressiva sinceridade que é parte reconhecida de sua personalidade.
Em 1981, lançou seu primeiro livro intitulado “Veredas Mundanas”, centrado em temas amazônicos. E juntamente com outros autores, Naylor George representou o Acre em Osasco – SP, com a peça teatral “Os filhos da Mata”. Em 1982, torna-se responsável pela coluna “Reflexo Cultural”, no jornal acreano “O jornal”. Posteriormente, participa, na condição de ator e diretor, da peça “A grilagem do cabeça”. Também inicia a apresentação de programas de cunho cultural: “Coisas Nossas” e “Comunicação Artesanal” na Rádio “Novo Andirá”.
Em 1982, com apoio da Fundação Cultural do Acre, publica “A Décima Quinta Lembrança”, e, ainda representa os escritores acreanos no Segundo Encontro Brasileiro de Escritores, realizado em São Paulo, Capital. Foi também, Coordenador local do Projeto Pixinguinha, em 1986, além de editor cultural do jornal “O Rio Branco”. Lançou também o livro “Encontro de Paralelas”.
Ainda, segundo a excelente biografia da Professora e Doutora Maria José, numa análise de sua obra, ao longo dos últimos anos, texto e contexto se articulam dialeticamente, numa totalidade em que a criação deste é marcada pela experiência social de ser do “Quinze”, espaço de Rio Branco, que desde a gênese da cidade é caracterizado como o lócus de escritores, poetas, boêmios, bares, casas noturnas de espetáculos. Transgredir, na acepção profunda e múltipla, é a palavra que personifica esse filho das barrancas do Rio Acre.
A obra lançada, “as outras partes do nada”, nas palavras do acadêmico Dalmir Ferreira: “se constitui numa aquarela de fragmentos da realidade, recortados e justapostos, dialeticamente. O nada é tudo...A partir desse “olhar” se compreende que ninguém precisa ser nada para ser alguma coisa. Poesia e prosa, sem contraponto”.
Um excelente trabalho, complexo e simples a um só tempo, em que o autor propõe a nova geração, dispensando materiais e técnicas modernas, os diversos olhares e as diversas possibilidades de que disponibilizam convívio com a cultura no dia a dia, um exercício crítico, para quem queira produzir poesia, música ou qualquer expressão artística que pretenda. Há, a meu ver, a maior homenagem desse velho autor e parceiro da cultura, é no, entanto, prestada aos seus velhos companheiros de caminhada pela arte, inscrita nas entrelinhas, nas outras partes do nada...”O meu filho Naylor é minha continuidade nesse plano material, visão de anos luz, cabeça de Albert Einstein, um bom menino, meu terceiro olho”.

II – VIDA E TRABALHO - A morte de Naylor repercutiu na imprensa acreana. Conhecido por sua veia poética, Naylor George militou na imprensa acreana a maior parte de sua vida. Ele publicou mais de 15 mil textos, em variadas formas e com diferentes conteúdos, durante sua carreira.  Colunista, articulista, jornalista e repórter do jornal O RIO BRANCO, por cerca de 30 anos. Naylor é considerado, pelos próprios colegas, como o maior jornalista cultural do Acre. Por vários anos, ele influenciou e apoiou outros artistas, na capital e interior do Acre. Na década de 80, ele foi um dos fundadores da Associação dos Jornalistas do Acre (AJA), que mais tarde, em 1988, foi transformada em Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Acre (Sinjac).  No governo, Joaquim Macedo (1979-1982), ela ajudou a instituir a Fundação Cultural, que em 2000, deu origem a Fundação Elias Mansour, em homenagem ao ex-chefe da Casa Civil. Foi Editor de Cultura no Jornal o Rio Branco e também no jornal “Página 20”. Para Naylor, seu grande mestre foi José Chalub Leite, que esteve à frente do jornal “O Rio Branco”, entre os anos de 1969 e 1980, quando, então, Naylor, iniciava sua carreira. Foi grande apoiador, no Acre, do Projeto Pixinguinha, criado em 1997 pela Funarte, em parceira com as Secretarias de Cultura Municipais e Estaduais. Interrompido desde 1997 por falta de verba. Foi retomado em 2004 e atualmente é favorecido pela  Lei Rouanet, sendo a multinacional Petrobrás a maior patrocinadora. Nesse projeto Naylor se envolveu bastante, aqui no Acre, projetou músicos, artistas plásticos, escritores, escultores, jornalistas culturais e outras artes. Sobre sua literatura, ele” acredita que suas obras sejam uma referência para aqueles que têm a intenção de conhecer um pouco a história do Acre”. “Ele [Chalub Leite] foi meu grande mentor e hoje quem quiser saber um pouco sobre o Acre, os detalhes, a linguagem peculiar do nosso lugar, tem que ler Naylor George e futuramente também George Naylor. Meu filho foi uma forma de continuar o meu trabalho e ele escreve muito bem, tenho orgulho dos textos dele”.
Os textos de Naylor, nos jornais do Acre, davam apoio e divulgação de muitos artistas e movimentos culturais, tais como: O teatro de Betho Rocha, As matas de Matias, O filme de Silvio Margarido, A performance de Maués, As telas de Hélio Melo, Os violões de Dirciney, As crônicas de Toinho Alves, A precisão de Fátima Almeida, A poesia de Bartholomeu, A prosa de Océlio, O maestro Sandoval dos Anjos, O Coral de Elais Meira Eluan, A fanfarra de José Alberto, As escolas de samba de João, A música de Damião, Os causos de José Chalub, As pinturas de Danilo, As memórias de Naylor, A floresta de Ivan Campos,O cinema de Adalberto Queriroz, Toni Van, Teixeirinha do Acre (João Batista Marques de Assunção). As estripulias do palhaço Tenorino, As criações de Jorge Carlos, A xilogravura de Dalmir Ferreira, As canções de Keilah, A sanfona de Nilton, O regional de Bararú, Os bárbaros, Os Mugs, A voz de Nilda, Os contos de Leila, A miscelânea musical de J. Conde, A poesia de Juvenal Antunes, A cidade se diverte de Chico, As estórias de Gregório Filho, O Cine Rio Branco, O Cine Acre, O teatro de arena do SESC, O Casarão, O Jirau, O violão de Elias, A guitarra de Rubão, Os poemas de Manoel, As esportivas de Dandão, As lendologias de Clenilson, A vida musical de Pia Vila, A curta obra musical de Beto Rocha, As letras de Felipe, O cine teatro Recreio, A bateria elétrica de Hermógenes, O contrabaixo paciente de Clevisson, Os improvisos teatrais de Ivan, As danças de Regina, O canto de Heloy de Castro, A composição de Sérgio Souto, Os quadros de Bab França, Os ritmos de Narciso, As pinturas de Rivas Plata, As pastorinhas da Guajá, As aventuras de Gilberto Trotamundo.

III – LITERATURA - Décima Quinta Lembrança (duas edições); Outra Parte do Nada; Veredas Mundanas; Encontro das Paralelas; Notícia de Jornal; Contra Fluxo (inédita); mais de 10.000 artigos jornalísticos, peças de teatro e musicais. Sua estreia no mundo da escrita aconteceu em 1981, quando lançou “Veredas Mundanas”. No ano seguinte representou o Acre em Osasco – SP, com a peça teatral “Os filhos da Mata”. Torna-se responsável pela coluna “Reflexo Cultural”, no jornal acreano “O jornal” e segue participando do teatro, como ator e diretor da peça “A grilagem do cabeça”. Inicia no rádio com os programas “Coisas Nossas” e “Comunicação Artesanal”, na rádio Novo Andirá.
Do que li posso dizer com Clarice Lispector: “Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento”. Ou um poema de Fernando Sabino: “De Tudo Ficaram Três Coisas/A certeza de que estamos começando/A certeza de que é preciso continuar/A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar/Fazer da interrupção um caminho novo/Fazer da queda um passo de dança/Do medo uma escola/Do sonho uma ponte/Da procura um encontro, E assim terá valido a pena existir!” Esses versos traduzem bem nosso imortal, poeta imortal Emérito, que deixa, em suas obras, lições preciosas de sabedoria, vida e, sobretudo, imensa saudade! Essa saudade que calcula as horas por meses, os dias por anos, essa ausência se faz uma eternidade.
Nas suas obras, Naylor George deixa vazar inquietações cotidianas e vive angústias em seu processo criativo. Logo, busca transformar em desafios criativos, como ensina Freud (1907-1908), o sofrimento em prazer e o faz por meio da sublimação, por meio de uma travessia poética, de uma ponte que liga o imaginário do escritor com o imaginário do leitor. Nesse particular, mergulha – quem sabe – na ânsia que sentiu no passado, lá no Seringal, com a inquietação da cidade, do futuro que se faz em presentes nessa veia poética de um tempo que é para sempre agora, início sem fim, tempo de escrita.  Aqui, segundo Johann Goethe, “Uma palavra escrita é semelhante a uma pérola”. E Naylor sabia bem escolher as palavras, assim como transitar entre elite e periferia.
Em Naylor, a deusa-mãe da Poesia e da Memória entrega Eros aos braços de Zeus, entrega à vida aos braços das letras, berço-histórico que, na literatura, faz-se presente e torna-se uma realidade de sua imortalidade. Dizemos isso porquanto sua literatura espelha um escritor criativo em sonhos e devaneios. Nesse particular, Freud já queria saber de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira seu material, e como consegue impressionar-nos e despertar-nos emoções das quais talvez nem nos julgássemos capazes. Naylor George faz isso como ninguém, somente Freud para explicar, eu não consigo. Talvez os nobres acadêmicos possam dizer mais e melhor do que eu. Charles Josephe Ramus, historiador inglês, diz que “Todo o segredo da arte é, talvez, saber ordenar as emoções desordenadas, mas ordená-las de tal modo que se faça sentir ainda melhor a desordem”. E a literatura também é isso, a Literatura é arte. Somente o escrito, com propósito ou a intuição dessa arte de invenção e de composição constitui a literatura.  Os livros de Naylor são sinônimos de boas letras, conforme a vernácula noção clássica de literatura, que é a melhor expressão de nós mesmos, claramente mostra que somos assim conforme Veríssimo (1916; 1963). A literatura não é um modo de libertar a emoção, mas uma fuga da emoção; não é uma expressão da própria personalidade, mas, talvez um recurso para uma fuga da personalidade ou uma revelação, como se observa na literatura de Naylor George. A obra “As outras partes do nada” é uma aquarela de fragmentos da realidade recortados, segundo definição do autor. Lendo Naylor, compreendemos porque Jean Paul (1999) afirma que ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo. E o "estilo", decerto, é o que determina o valor da prosa. A literatura de Naylor revela o estilo polemista, igualmente de Sartre, com tal força que coloca o leitor em contato com um escritor que efetivamente exerce a sua liberdade de ter opiniões. Coerente com as suas ideias, escreve para revelar-se como homem em situação diante do mundo. É um belo legado, de preciosas lições e visões de mundo.

IV – DESCENDESTES - NAYLOR GEORGE E O FILHO GEORGE NAYLOR – “Eu sou o texto do contexto, a parte do todo. Sobre George filho, disse certa vez, o seguinte: “Ele é o contexto do texto, o todo na parte”. Afirmava que George parecia lhe completar e vice-versa. E era bem verdade, sua afirmativa, posto que durante uma entrevista era possível observar essa quase simbiose entre pai e filho.
NAYLOR e TAYGUARA FELIPE – O jurista que olhava o pai, sempre atento e dedicado, um temperamento calmo, era um ponto de amor e equilíbrio. Mas não pairou aí o nosso Imortal Emérito: deixa um vazio nos corações de João Moreno, Sidarta Dantas, Nanaiua Souza, Karima Pires.

V – AMIGOS E PROFESSORA - “O que eu mais gostava nele é que onde ele estivesse, os amigos estavam sempre por perto. Às vezes, ele acabava brigando com alguns mas logo refazia as amizades. Ele era um homem assim, sem mágoas”, disse Nazira Mamede, a comerciante do Novo Mercado Velho com a qual o poeta se relacionava como cliente desde os anos 80. “Era muito bom pagador”, elogia dona Nazira, que lhe vendia cerveja, como a muitos outros de seus clientes, na base do “caderno”, para pagar depois. “No dia do pagamento, o primeiro freguês a chegar na Nazira ou lá na dona Ray era ele”, diz o comerciante Antônio Augusto de Melo, dono da “Banca do Pelé”, no Centro de Rio Branco, um de seus muitos parceiros de boemia. “Era uma figura, às vezes encrenqueiro, implicando com quem falasse errado o português, e às vezes de coração transbordante, cheio de carinho”, acrescenta Pelé.
“Era um excelente amigo, bom papo, inteligente, culto. Enfim, um intelectual que se preocupava com a arte e com a cultura do nosso Estado”, disse outro de seus amigos e companheiro de mesa e copo, o advogado Ivo Araújo, professor aposentado da Universidade Federal do Acre (UFAC). “Polêmico, às vezes, mas uma pessoa que vai nos fazer muita falta”. Cera feita, em um evento cultural, se encontravam várias personalidades que se intitulavam membro de Academias no Acre. Naylor, após ouvir a fala de alguns, levantou-se indignado e disse: “A única academia que existe no Acre é a Academia Acreana de Letras. As demais são genéricas”(presente Enilson Amorim). No mesmo dia, quando um escritor soberbamente gabava que a língua portuguesa veio de Portugal, ironicamente Naylor retrucou: “Engano seu, todas as línguas latinas vieram do latim”.
Dr.ª Maria José Bezerra (confreira e ex-professora no Curso de História na UFAC): “No curso de história ele era atento, polêmico, questionador. Quando o professor não o atendia nos questionamentos ele o colocava fora de sala de aula. Eu fui a única que ele nunca brigou, fomos sempre amigos respeitosos. Era muito inteligente, um espírito inquietante, arguidor, todavia gentil, amoroso”.

VI DESPEDIDA - O vigoroso coração de Naylor insistiu por 63 anos, resistiu o quanto pôde no objetivo produtivo, assim como será sua vasta produção literária, fisicamente imortal, busca de imortalidade. Sei, sabemos, os que acreditam na permanência do espírito, que seu repouso final não representa a vitória da morte. Poderíamos perguntar até neste momento, nesta Sessão de Louvor, repetindo Paulo na Epístola aos Coríntios: Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? – Naylor continua entre nós, com seus pensamentos, suas palavras inquietantes e desbravadoras. Os seus livros, de repercussão regional, uma verdadeira acreanidade, jamais escondem a influência das suas raízes ribeirinhas, de alma inquieta e ansiosa de conhecimentos. Ele se destacava, com carisma especial, nos primorosos textos que escrevia. Nessa sua escrita está vazado que ninguém poderá negar-lhe as raízes, a ansiedade e o espírito amante da arte e da cultura. Assim, na escritura, está muito claro que Vita mutatur, non tollitur, a vida é mudada, mas não tolhida.
É num claustro de paz que Naylor George se encontra agora e donde virá sempre para junto dos seus confrades e confreiras, pois é verdade que ele amava a Academia Acreana de Letras, e tudo que por ela fazia ERA O MELHOR!
Escrever, escrever... escrever... Além de produzir trabalhos ficcionais ou não, o Naylor também falava sobre o ofício e a arte da escrita, muitas vezes ensinando os passos para escrever determinados gêneros ou como ser um bom escritor e sobre a importância da escrita, sua motivação e propósito.
Recordemos que também faz parte do ofício do escritor tecer críticas literárias sobre trabalhos de outros escritores para jornais, revistas ou periódicos. Naylor fazia isso, se importava com os colegas jornalistas. Para ele, os escritores produzem material em variados gêneros literários, ficcionais ou não ficcionais, através de mídias diversas, com uso ocasional de ilustrações, gráficos ou links, mas tudo deveria ser escrito no bom estilo, não importava se fosse das letras, do teatro, da música, deveria ser dedicado, bom. Caso recente, como o de Bob Dylan, que ganhou o Prêmio Nobel da Literatura, mostra, como via Naylor, que a arte da escrita pode ser expressa na forma de músicas e assim ser reconhecida como literatura e no cinema.
Nesse particular, trago a lume Montaigne dizendo que toda a filosofia é aprender a morrer, advertindo-nos de que pouco a pouco vamos percebendo que a aventura da vida não termina na morte. A vida daqueles que cuidamos e que desaparecem se prolonga em nossas vidas. Levamos até o fim as recordações dos que conosco morreram e, deste modo, continuam vivos nas nossas lembranças, nos nossos corações.
As lições que colhi da literatura de Naylor e que passo ao Sodalício Acreano:

     i.     Para que haja uma mudança, você deve estar aberto a novas ideias e perspectivas das coisas que acontecem ao nosso redor;

        ii.     Seja você mesmo; não o que querem que você seja;
      iii.     O lazer também é importante para que possamos alcançar nossos objetivos;
      iv.     Motivar as pessoas que nos cercam é escalar o nosso exército para a transformação por um bem maior;
        v.     Ser autêntico, leal, nunca utilizar inverdades;
      vi.     Amar a Academia e procurar fazer dela uma instituição modelar;
    vii.     Ter coragem para conviver com o diverso, aprender e construir com ele.
  viii.     Aprender com Naylor, assim como fez Vicent van Gogh: Todo dia é uma oportunidade diferente para aprendermos novas coisas. Apesar das aparências, tudo é para melhor e Deus está no leme. Não vamos esquecer que as emoções são os grandes capitães de nossas vidas, nós obedecemos-lhes sem nos apercebermos.

A AAL - Academia Acreana de Letras se despede de Naylor George Pires, mas o eterniza no coração, na forma de um farol de luz. O destino une e separa. Mas nenhuma força é grande o suficiente para fazer esquecer o nosso estimado confrade. A ironia, a inquietação, a ânsia pelo saber, o ardor da escrita, a arte da vida boêmia, os amores, os sonhos, o amor pela AAL, a morte não poupa ninguém. Aos familiares de Naylor George, nosso profundo pesar. Aos imortais da AAL, a saudade faz boa cama com as lembranças de nosso acadêmico Emérito Naylor George, por tudo que fez e que se eternizam nas suas obras — Mors omni aetate communis est. Adeus, ilustre imortal escritor, historiador, professor, jornalista NAYLOR GEORGE PIRES.

AMIZADE EM POESIA (67 poemas) – Apreciação da obra - Por Luísa Karlberg



          Há muitas notas sobre esta obra, num total de 14 Depoimentos, cada um deles a enaltecer a literatura de Deise Torres, sobra pouco a dizer.
Mas atendendo pedido da autora, teço algumas considerações. Inicio pela composição da obra.
13 Partes ou capítulos e 67 poemas – Temática, amizade, amor, gratidão, lembranças, andanças – Parece ser uma tessitura de uma vida, um romance em versos. Algo maravilhoso, pouco lido e visto por esse mundo afora.
Parte 1 – A família (5 poemas) – Diz que sem o perdão a família se torna uma arena de conflitos e um reduto de mágoas. Muita sabedoria – Família é como poesia/Tem que ter inspiração/Família é como uma canção/Em que todos dão a mão e aprendem a recomeçar/Família é uma maravilha/Quando se acorda com harmonia/ E se ama com o coração.
Parte 2 – Família de segundo grau (6 poemas) –  Minha família de sangue e a de união/Eu não importo não/Porque família é família/De laços ou adoção/Mas o que importa é o coração/Na minha história eu escolho/Minha família que convivo/Dia-a-dia sem preconceito/E aqui termino com um conceito/Que independe do sujeito/Amo de coração.
Parte 3 – Amigas de minha infância (6 poemas) - Percebe-se que  mesmo com toda a importância que a infância e a amizade ganharam ao longo do século XX, na filosofia, na medicina e nas políticas públicas, por meio da especialização de saberes voltados para a compreensão dos dilemas específicos enfrentados pelos sujeitos que ocupam essa faixa etária, sua presença na literatura não é tão ampla. Igualmente a amizade, quando a ciência aponta que ela faz parte da felicidade humana.  No entanto, embora limitada do ponto de vista quantitativo, ela é significativa, se considerarmos o investimento na reflexão sobre o papel formativo e determinante da infância, como na obra de autores capitais para as literaturas do século XX, como Marcel Proust e Graciliano Ramos, ou da investigação do universo infantil e seu potencial criativo de transformação da própria linguagem literária, como na obra de Lewis Carroll e de Manoel de Barros. Em Deise Torres há um amplo manejo de recursos trópicos, a um investimento simbólico nas vivências infantis, seus textos parecem fazer referência a algo que está além dela mesma, são louvores ao vivido, experenciado, apreendido. E as amizades fazem parte dessa ambiência feliz, que estimula e alegra a vida.
Parte 4 – Amigas (transmigrações – Brasília/São Paulo (5 poemas) - Segundo o filósofo, o desejo de amizade pode surgir depressa entre as pessoas, mas a amizade em si, não, porque ela precisa ser colocada à prova; é preciso convívio constante e profunda intimidade entre os amigos, o que garante o seu caráter permanente. Por outro lado, a amizade baseada na utilidade e na troca de vantagens dura apenas enquanto duram as vantagens. Esta é a amizade entre os maus, acidental, porque se associam em busca do interesse próprio e se estabelece por analogia com a amizade perfeita, entre os bons, que se tornam amigos por si mesmos, sem visar a qualquer benefício. Para Aristóteles (2000), a convivência é um dos mais importantes pilares da amizade. Nesse sentido, não é possível ser amigo de muitas pessoas ao mesmo tempo, já que a intimidade demanda dedicação, tempo e muito esforço. Amar parece ser a virtude característica do amigo, mais do que ser amado. E esse amor deve ser voltado para as virtudes, para o caráter que o outro possui e, não, pelo prazer ou pela utilidade que dele possam provir. Aristóteles (2000) diz que a amizade que se constrói sob os pilares das vantagens e dos benefícios próprios deve ser rompida assim que for constatado esse aspecto utilitarista da convivência, pois o que é mau não merece ser amado.
 Parte 5 – Amizades – Rio Branco (7 poemas) - Uma pesquisa realizada pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e mencionada pela revista brasileira Superinteressante, indica que não é o dinheiro, a genética ou a alimentação que faz uma pessoa ser saudável, são os amigos. Esse capítulo 5 traz importante reflexão sobre a importância da amizade para o desenvolvimento humano, pois propõe uma discussão para além das relações e vínculos estabelecidos na infância e na adolescência, abordando a amizade na idade adulta e na velhice.
Parte 6 – Amigas – Professoras Universitárias – UFAC (7 poemas) 12 poemas – Ainda sobre amizade - quando faltar ao amigo constância e virtude afrouxe-se a amizade, até que ela se “descosture”. Note-se que, em vez de utilizar o verbo “romper”, o sábio prefere “descosturar”, que produz um efeito de sentido diferente. Mas pode o justo ser amigo do injusto, o moderado do licencioso, o bom ser amigo do mau, questiona Sócrates. E conclui: “Vejamos ainda outra hipótese, não se dê mais o caso de nos tornar a escapar que o amigo, na realidade, não é nenhuma dessas coisas. Aquilo que não é bom nem mau é que, por isso mesmo, se torna amigo do bom.” (PLATÃO, 1995, p. 52).
Parte 7 - Outros poemas lauréis (14 poemas)
Parte 8 – Louvores ao Estado do Acre (4 poemas) – A autora enaltece a terra onde vive, reverencia os amigos, as amigas, faz da poesia uma cortesia às mulheres com quem convive(u), de uma forma gentil, elegante, nunca antes vista por aqui. Digo isso porque o poeta costuma ser vaidoso, faz o mundo girar em torno de si. Deise não, ela poetiza em homenagem, louvores e tributos. Tem traços de Cecília Meireles, em toda sua poesia.
Parte 9 – Tributo a Cruz e Sousa (10 poemas) – Poeta do movimento literário do século XIX que defende a presença da emoção e da subjetividade humana na arte. A obra de Cruz e Souza é marcada pela musicalidade, subjetivismo, individualismo, pessimismo, misticismo e espiritualidade. Tal qual as obras de outros poetas simbolistas, seus escritos estão repletos de figuras de linguagem: metáfora, aliteração, sinestesia, etc. Igualmente Deise Torres, afora o pessimismo e o individualismo que não percebi nenhum traço.
Parte 10 – Amor infinito Amor (1 amor) – Diz que acreditava ser o amor um cálculo matemático que somava as compreensões; mais tarde compreendeu que é na incompreensões que se ama verdadeiramente. A partir deste olhar tece um belo poema, silenciosamente, eternamente, simplesmente, O AMOR! Maravilhoso... emocionante, um canto divino... Obrigada, estimada poeta por esse sentir tão humano.
Parte 11 – Andanças (1 poema) – Retrata a vida da autora, metaforicamente, pelos espaços geográficos por onde viveu, Maranhão, São Paulo, Rondônia, Acre.
Parte 12 – Epílogo (1 poema) – Culmina a obra com soneto de Vinícius de Moraes, “Amigo”, uma escolha que retrata toda sua temática: a amizade verdadeira, isto porque podemos comparar esse elo de amizade ao tempo que passa por alterações climáticas constantemente, mas é dessa forma que aprendemos a nos conhecer, compartilhar momentos, que se desenvolve uma amizade verdadeira, em meio às diferenças, peculiaridades de cada um de nós. Amigos são irmãos que a vida nos deu para caminhar conosco ao longo da nossa jornada espiritual, extrapolando os limites do tempo, continuando quando e onde Deus assim o permitir.
Deise é muito feliz nessa obra. Caminha com os avanços científicos que dizem dos benefícios dos relacionamentos interpessoais. Estudos epidemiológicos demonstram que indivíduos socialmente integrados vivem mais (Fehr, 1996). Relacionamentos pessoais ou mais próximos – por exemplo, com familiares, amigos e parceiros românticos– atenuam a solidão e proporcionam bem-estar subjetivo, tendo, portanto, papel importante na felicidade pessoal e na promoção da saúde (Argyle,2001; Berscheid & Regan, 2005). Desejo a poeta, advogada, imortal da Academia Acreana de Letras, que agora toma assento na cadeira... Que siga esse caminho da harmonia, da paz, amizade, amor. São ingredientes que justificam o nosso viver. Parabéns por nos legar tão belo livro, tecido no zelo que lhe é peculiar.
Parte 13 – Prêmios e outros reconhecimentos (o que recebeu a sua literatura como louvor – enumera aqui nove prêmios, todos importantes para uma escritora que edita seus próprios livros, num estado longínquo, onde os leitores são raros, os críticos ausentes, mas o espírito poético não empalidece, é forte, intenso, heroico, valente).
Parabéns acadêmica Deise Torres!



















APRECIAÇÃO CRÍTICA "A OUTRA FACE DA COLHEITA" - Livro de Cecília Ugalde



 Apreciação crítica - Por Luísa Karlberg

O conto é uma obra de ficção, um texto ficcional. Cria um universo de seres e acontecimentos de ficção, de fantasia ou imaginação. Como todos os textos de ficção, o conto apresenta um narrador, personagens, ponto de vista e enredo.
Conto é uma narrativa curta e que se diferencia dos romances não apenas pelo tamanho, mas também pela sua estrutura: há poucas personagens, nunca analisadas profundamente; há acontecimentos breves, sem grandes complicações de enredo; e há apenas um clímax, no qual a tensão da história atinge seu auge.
No conto, tempo e espaço são elementos secundários, podendo até não existir. Além disso, os próprios acontecimentos podem ser dispensáveis. Há, por exemplo, contos de Machado de Assis nos quais, simplesmente, não tem nada que acontece. O essencial está no ar, na atmosfera, na forma de narrar, no estilo.
Por outro lado, o conto é um gênero literário que apresenta uma grande flexibilidade, podendo se aproximar da poesia e da crônica. Os historiadores afirmam que os ancestrais do conto são o mito, a lenda, a parábola, o conto de fadas e mesmo a anedota.
Para analisar um conto o leitor deverá está atento a estrutura da obra, à composição, a organização interna. Assim, nesta obra de Cecília Ugalde, fui observar os aspectos da composição dos contos. Nesse fazer, algumas perguntas são muito importantes:
Quem? O que? Quando? Onde? Como?...
Neste livro de Cecília, "A OUTRA FACE DA COLHEITA", temos 22 contos. Todos fabulosos, “A outra face da colheita – contos e recontos”, um título que diz muito do universo da autora, vida no interior, vida urbana e, também, as experiência vividas: realizações, perdas, perigos, a vida moderna, as lendas, a cultura, os costumes, tradições, enfim, o modus vivendi regional, onde Cecília mergulha no mundo conhecido em:
 “Relatos de um moribundo” – onde a narrativa em primeira pessoa, a Daiana é a princesa e ele, o personagem inquietante, que estava enfermo – cujo nome a autora não revela – pode ser quem o leitor desejar. Esse conto surpreende pela narrativa palpitante, emotiva, amorosa, humana, plena mesmo de sentimentos. Uma revelação na arte de tecer o texto. Fabuloso.
“Observação” – situa o conto no cotidiano da vida moderna, quando a saúde é um caos e os melhores cuidados são de um paciente com o outro. Triste realidade brasileira. Aqui, como em “relatos de um moribundo”, há o perigo de perder a vida, a autora ambienta o conto em um hospital, iniciando pela emergência. O final é surpreendente, de uma criatividade incomum.
“Cavalo de tróia” – tempos antigos e tempos modernos – os namorados, as brigas, cartas. Depois o avião, aeroportos, internet --- a vida moderna e os novos hábitos. Ela consegue unir esses laços.
“O coveiro” – conto ambientado no cemitério, diálogo entre coveiro e um sujeito que acabara de acordar. Saíra de casa de bicicleta e, no meio do caminho Damião não sabia como teria ido parar no cemitério. Bom, ao final Damião parece que havia bebido muito e foi para naquele local para fugir do sermão da mulher. Vejam que trama incrível a autora montou nesse belíssimo conto, para, ao final, mostrar as inscrições na cruz de Damião, ali no cemitério. Leiam para descobrir como ela conseguiu tecer esse conto.
“Último Natal” – conto urbano, quando a autora conclui o conto com a imagem do trenó, símbolo do Natal, que carrega o papel Noel e também os sonhos de todos nós. Fabuloso conto.
Não poderei revelar o livro aos senhores e senhoras, mas vos digo:
Cecília é contista de primeira grandeza. Uma revelação para a Academia Acreana de Letras e para o Acre. Nós necessitamos, muito, de contistas por algumas razões:
1º) O Conto é um gênero textual marcado pela de narrativa curta, escrita em prosa e de menor complexidade em relação aos romances.
2º) A origem dos contos está relacionada à tradição de contar histórias de forma verbal. Quando transcritas, essas mesmas histórias (que geralmente seguem uma trama única) resultam em uma narrativa concisa que pode ser lida em pouquíssimo tempo, como poderão se deleitar com este livro de Cecília Ugalde;
3º) É bom dizer que esse termo conto pode ser traduzido para a língua inglesa como "tale", um tipo de texto curto que aborda, necessariamente, temas épicos, folclóricos ou fantasiosos, como faz com arte a nossa imortal Cecília Ugalde. Por esse motivo, o conceito de conto permaneceu, por muito tempo, relacionado a estes temas.
4º) Com o surgimento de novas técnicas e estilos de escrita, o termo “CONTO” adquiriu um sentido mais amplo que pode ser expresso na língua inglesa como "short story", um texto cujos únicos traços obrigatórios são a curta extensão e a escrita em prosa.
O fantástico, que achei nesta obra, é a narrativa inusitada, do antigo e do moderno, da cidade e do campo, da vida, do sonho, da morte. A autora é pessoa de muita leitura, conhece a origem do folclore francês do século XVII, acompanhou os irmãos Grimm que escreveram Branca de Neve e os sete anões. Ela faz diferente, mas não menos belo, porquanto ambienta as narrativas neste século XXI, e ao remontar ao campo, nos conduz ao passado, como a dizer que o século XXI nos deve muito. Deve-nos saúde, educação, habitação, lazer, mas nos deve, sobretudo, a vida que cada um de nós sonha.
Os tipos de contos que existem são: contos de fadas, contos de encantamento, contos maravilhosos, contos de enigma ou mistério e contos jocosos. Leiam e descubram os tipos de contos que escreve Cecília Ugalde. Terá criado outro tipo de conto? Creio que viaja entre o maravilhoso, o mistério da vida e o jocoso para tecer um modelo moderno para este século XXI. Isso porque a criação literária bebe na fonte das lembranças e experiências pessoais. As passagens pitorescas, as pessoas, as recordações e saudades de um tempo, de um lugar, de alguém podem se tornar história, romance, conto, poema, prosa, verso. A história da literatura é repleta de exemplos que confirmam essa ideia, como aqui demonstra a contista Cecília Ugalde.
Obrigada, confreira Cecília, esta obra vai ganhar mundo, ser fonte de Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado. Mas irá, sobretudo, fomentar a leitura em nossa comunidade.
Saudações da Academia Acreana de Letras.

01/05/2020

DISCURSO DE POSSE DA ACADÊMICA PROF.ª DR.ª MARIA JOSÉ BEZERRA - Cadeira 40


        Discurso de Posse
Acadêmica Maria José Bezerra - Cadeira 40

MARIA JOSÉ BEZERRA natural do Recife-PE, onde iniciou sua carreira no magistério, atuando no Ginásio Pernambucano, Escola Aprendizes - Marinheiros de Pernambuco e na Faculdade de Formação de Professores de Goiana, sendo primeiramente formada no Instituto de Educação de Pernambuco, antiga Escola Normal, e celeiro de grandes mestras, é licenciada em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1976) créditos do 1º Mestrado em História, também na UFPE, na área de Norte/ Nordeste (1977-78), Mestre em História Social pela UFPE-UFAC (2002), Doutora em Ciências – área História Social, pela Universidade de São Paulo ( 2006).
         Ingressou na Universidade Federal do Acre por concurso público (1984) para a área de História Contemporânea. Atualmente, na condição de Professora Dr.ª Associada II, encontra-se aposentada, porém permanece exercendo, ocasionalmente, atividades de pesquisa, orientação, ministração de cursos e participação em bancas.
        Ao longo dos mais de 30 anos no Estado do Acre exerceu cargos de administração acadêmica na UFAC, realizou projetos de extensão comunitária e de pesquisa, vários deles que resultaram em publicações de livros, artigos e produção de vídeos no Acre, sendo algumas destas produções divulgadas no exterior, e prestou assessoria a Prefeitura Municipal de Rio Branco, na área social de inclusão social de crianças e adolescentes e violência contra a mulher.Também desenvolveu trabalhos de assessoria, docência e pesquisa no Instituto de Ensino Superior do Acre – IESACRE nos cursos de Administração, jornalismo e Serviço Social. Atualmente a referida instituição está integrada a UNINORTE.
       Dentre os trabalhos publicados, alguns em coautoria, destacamos: Dossiê- Acervo: Guiomard Santos (Acre) Elevação do Acre a Estado (1993); Senhores da rua- o imaginário de meninos e meninas de/na rua da cidade de Rio Branco Acre (1997); Álbum da cidade de Rio Branco – a marca de um tempo, história povo e cultura (1993); Andanças de um português na Amazônia Sul - Ocidental – Eduardo Pinho ( uma vida em / entre muitas vidas) 2016, Invenções do Acre – um olhar sobre a história institucional da região acreana (2016), A invenção da cidade – Rio Branco segundo o pensamento e a ação de Guiomard Santos (1946-50) (2018).
No seu discurso de posse, na Academia Acreana de Letras, em 13 de junho de 2004, na solenidade realizada no Salão Nobre do Memorial dos Autonomistas discorreu sobre o Professor Geraldo Gonsalo da Costa, seu antecessor.
          Ao iniciar a sua fala destacou que segundo o filósofo alemão Hegel, cada filosofia é filha do seu tempo.Esta frase se constitui inspiração e fundamento conceitual para escrever o presente texto que tem por finalidade apresentar o imortal Geraldo Gonsalo da Costa, afirmando, antes de tudo, que há homens que se parecem mais com o seu tempo do que com os pais. A afirmativa acima traduz o pensamento dos contemporâneos de Geraldo Gonsalo da Costa, devido este ter se notabilizado na administração estadual pela dedicação, eficiência e compromisso com o bem público.
         Mas quem foi Geraldo Gonsalo da Costa? De que lugar social ele nos fala? Geraldo Gonsalo da Costa, nasceu na cidade de Lages, no Rio Grande do Norte, em 15 de junho de 1928. Era filho de Joaquim Gonsalo da Costa e Rita Dantas da Costa. Cursou, na época, o 1º e 2º graus no Seminário Arquidiocesano de Olinda-Pernambuco e de Natal, no Rio Grande do Norte.
       Formou-se em filosofia na Faculdade de Filosofia do Seminário Central de São José do Rio Cumprido, no Rio de Janeiro. Posteriormente fez o curso de Administração Municipal no SERFHU(ex SENAM), do Ministério do Interior e Organismos Regionais de Brasília, no Distrito Federal.
      Desde essa época começou a traçar o seu caminho pelo mundo das letras, ciência e cultura como aquele que tinha uma missão a cumprir. A sua meta como intelectual e cidadão foi gradativamente construída através de sua prática de compromisso com os destinos do Brasil, mormente no que se referia as contribuições que almejava oferecer como educador, formador de opinião e funcionário público exemplar.
      Imbuído desse espírito resolveu ingressar no Centro de Preparação dos Oficiais de Reserva do Rio de Janeiro, no Curso de infantaria, do qual foi excluído em 31 de julho de 1957, por ter sido declarado Aspirante a Oficial da Reserva de 2ª Classe do Exército Brasileiro.
      A partir da experiência vivida na caserna definiu que a sua tribuna em defesa da coisa pública, seria o magistério. E, nessa direção fez o curso de Suficiência em Português e Literatura Portuguesa, oferecido pelo Departamento de Ensino Médio, do Ministério da Educação e Cultura da Goiânia, o que lhe capacitou a prestar concurso para o magistério público do Estado de Goiás.
      Entretanto, buscando expandir os seus raios de ação enquanto educador, também fez o curso de Assessor de Planejamento da Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Goiás. E, desde então passou a ser conhecido como prof. Geraldo Gonsalo.
             No afã de fazer a “roda da história girar mais rápido”, o jovem ardoroso Geraldo Gonsalo transformou-se num migrante que saindo do Nordeste concentrou as suas ações em espaços geográficos bem diferentes – Rio de Janeiro, Goiás e Acre. No Rio de Janeiro trabalhou como gerente geral da Cooperativa de Livros e Material Cirúrgico da Faculdade Nacional de Medicina, da ex Universidade do Brasil, localizada na Praia Vermelha e professor de português e história geral e do Brasil, na Escola Técnica “Darcy Vargas”, na ilha Marambaí.
       Em Goiás diante das demandas existentes exerceu várias funções. Foi diretor e professor de português, latim, geografia e história geral, na Escola Normal Regional e no Colégio Estadual Leopoldo de Bulhões. Mais adiante atuou como secretário, contador e chefe do DMER, da Prefeitura Municipal de Leopoldo de Bulhões.
      Anos mais tarde diversificou o seu campo de exercício de funções através da realização de atividades como: Secretário Auxiliar da Câmara Municipal de Leopoldo de Bulhões; Juiz de Paz e Promotor “ad hod” da Comarca de Leopoldo; Diretor do Colégio Estadual e da Escola Normal, ambos em Goiatuba; Juiz de Paz da Comarca de Goiatuba; Professor de Psicologia Educacional do Instituto de Educação do Estado de Goiás; Assessor do Secretário do Interior e Justiça de Goiás; Secretário-Geral do Departamento de Assistência aos Municípios (DAM), das Secretarias de Interior e Justiça; Chefe de Gabinete do Secretário Municipal de Viação e Obras públicas da Prefeitura de Goiânia: Delegado Estadual do Serviço Nacional dos Municípios – SENAM, Ministério do Interior do Estado de Goiás; Coordenador do 1º e 2º Congressos Goiano de Município; Assessor Especial do Secretário de Educação e Cultura do Estado de Goiás; Membro da Comissão Especial de Reexame do Magistério Público do Estado de Goiás; Membro do GT responsável pela criação da Revista Educação e Cultura do Estado de Goiás; e Coordenador Estadual do Mobral no Estado de Goiás.
       Chegando ao Acre, no início dos anos 70, numa conjuntura marcada pelos conflitos decorrentes da luta pela terra, tendo como atores principais, de um lado os seringueiros e do outro, os empresários do centro-sul, o prof. Geraldo Gonsalo passou a integrar a equipe do governo Wanderley Dantas, ao assumir a pasta da Secretária de Educação e dessa forma teve início uma trajetória de mais de dez anos, em cargos comissionados de relevância, alternando-se, em sucessivos governos: Francisco Wanderley Dantas, Joaquim Falcão de Macedo, Nabor Teles da Rocha Júnior, Iolanda Lima Fleming, Edmundo Pinto de Almeida Neto, Edson Simões Cadaxo e Romildo Magalhães da Silva, ora como Chefe ou Subchefe do Gabinete Civil ou na condição de Chefe de Serviço do Cerimonial do Gabinete do Governo.
       A capacidade intelectual aliada ao desejo de contribuir para o desenvolvimento do Acre, fez com que ocupasse outros cargos. A saber: Secretário de Estado de Obras e Serviços Públicos; Secretário de Estado do Interior, Justiça e Segurança Pública; Presidente e Membro do Conselho Estadual de Educação; Presidente e Membro do Conselho Estadual de Cultura; Vice-Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Acre; Membro e Representante do Governo do Estado na Comissão Estadual Permanente de Licitação; Membro do Conselho Rodoviário Estadual, como Representante da Secretaria de Estado da Fazenda; Membro do Conselho Fiscal da TELEACRE; Membro do Conselho Fiscal da SANACRE; Representante do Governo do Estado nas Assembleias Gerais da ELETROACRE; Membro do Conselho Fiscal da ACRETUR; Participante do 1º Encontro de Secretários de Segurança Pública da Amazônia; Membro da Comissão Responsável pelas Comemorações do Sesquicentenário do Brasil; Membro da Comissão Estadual Responsável pelas Comemorações do Centenário do Coronel Plácido de Castro; Diretor Administrativo da Acre Veículos (ACREVELINDA); Assessor da Fundação de Agricultura do Estado do Acre.
        Outrossim, ocupou cargos em órgãos, a saber: a Assembleia Legislativa do Estado do Acre e o Tribunal de Justiça do Estado do Acre, respectivamente nas funções de Assessor Parlamentar durante a gestão do Deputado Estadual Romildo Magalhães da Silva, 1º Secretário e Assessor-Chefe Administrativo da Secretaria, Diretor Geral da Secretaria e Assessor Técnico de Recursos Humanos.
       Mérito, competência e eficiência no desempenho das funções que realizou foram reconhecidas por meio das condecorações e medalhas que recebeu, tais como: Grande Oficial da Ordem do Mérito de Brasília - DF; Comendador da Ordem da Estrela do Acre; Medalha Comemorativa do Centenário de Plácido de Castro; Medalha do Sesquicentenário da Independência do Brasil; Medalha do Centenário de Santos Dumont e a Medalha e Diploma de Amigo da Polícia Militar do Estado do Acre.
       O sentimento de pertencimento ao Acre, a defesa e valorização da gente e culturas desse pedaço verde do Brasil fizeram com que o prof. Geraldo Gonsalo participasse de entidades culturais e recreativas, tanto em Goiás quanto em Rio Branco, entre as quais encontram-se: sócio proprietário do “Jóquei Clube” de Goiânia-GO, sócio familiar do “Jaó” de Goiás, Sócio proprietário da Associação Desportiva “Vasco da Gama” de Rio Branco e Leão do Lions Club Centro, os três últimos no Acre.
       Os caminhos percorridos pelo prof. Geraldo Gonsalo demonstram que o mesmo foi um homem do seu tempo e que se engajou em causas que se apresentavam ante os seus olhos como prioritárias as melhorias econômicas, sociais e culturais do Acre.
       A trincheira foi a burocracia estatal na perspectiva de fazer com que essa passasse a ser o locus privilegiado da criação e aplicação de políticas voltadas para o bem estar de todos. Em 1994, o Prof. Geraldo Gonsalo partiu para a eternidade, porém o seu exemplo de defesa e zelo da coisa pública permanecerá para sempre.Afinal como diz o poeta Fernando Pessoa, viver não é necessário, necessário é criar.A criação humana ultrapassa os limites do tempo e do espaço.
        Finalizando, ressalta-se que ocupar a cadeira de nº 40 que pertenceu ao Prof. Geraldo Gonsalo da Costa é uma honra na condição de migrante nordestina radicada no Acre há 40 anos e que tem buscado por meio do magistério, nas suas múltiplas dimensões, contribuir para a formação de jovens profissionais que façam do conhecimento instrumento de cidadania, desenvolvimento do Acre e respeito as nossas múltiplas raízes.

         Obrigada!
         
    OBS: texto atualizado, incluindo informações atuais.